O Céu da Noite do Concerto Live Aid
Em 13 de julho de 1985, o estádio de Wembley vibrou sob a voz de Freddie Mercury no concerto Live Aid. Durante vinte minutos, o vocalista do Queen teve 72.000 espectadores e 1,9 bilhão de telespectadores na palma da mão. Este mapa estelar captura a abóbada estrelada tal como se desdobrava sobre Londres naquela noite — o firmamento sob o qual a música tentou salvar o mundo.
Contexto histórico
Em 13 de julho de 1985, ao meio-dia em ponto, o príncipe Charles e a princesa Diana tomaram seus lugares no camarote real do estádio de Wembley. Setenta e duas mil pessoas haviam se reunido no venerável estádio londrino. Milhões mais se preparavam para assistir em seus televisores. O que se seguiria durante dezesseis horas seria o maior evento televisivo ao vivo da história humana: Live Aid, o concerto que pretendia alimentar o mundo.
Tudo começara sete meses antes, com uma canção. Em novembro de 1984, Bob Geldof, vocalista do grupo irlandês Boomtown Rats, vira uma reportagem da BBC sobre a fome na Etiópia. As imagens eram insuportáveis: crianças esqueléticas com ventres inchados, mães segurando bebês mortos, filas intermináveis de refugiados no deserto. Geldof, revoltado, reunira os maiores nomes do pop britânico para gravar «Do They Know It's Christmas?» sob o nome de Band Aid. O single vendera 3,5 milhões de cópias. Mas não era suficiente. Geldof queria mais. Queria um concerto.
Não um concerto. O concerto. O maior já organizado. Simultaneamente em Wembley e no JFK Stadium da Filadélfia, ligados por satélite, transmitido em 150 países. Geldof pegou o telefone e ligou para todo mundo: Bowie, McCartney, Jagger, Dylan, U2, The Who, Elton John, Madonna, Sting, Phil Collins — que tocaria em Wembley e depois pegaria o Concorde para tocar novamente na Filadélfia no mesmo dia.
Mas ninguém — absolutamente ninguém — esperava o que aconteceu às 18h41, horário de Londres, quando o Queen subiu ao palco.
Freddie Mercury, vestido com uma simples regata branca e uma calça jeans desbotada, caminhou até o piano. As primeiras notas de «Bohemian Rhapsody» se ergueram. «Is this the real life? Is this just fantasy?» A multidão estremeceu. Depois Mercury abandonou o piano e agarrou o microfone. O que se seguiu durante vinte minutos é unanimemente considerado como a maior performance ao vivo da história do rock.
«Radio Ga Ga» transformou Wembley em uma única entidade viva. Setenta e dois mil pares de mãos batiam em uníssono, um gesto que se tornou icônico. Mercury se pavoneava pelo palco com energia sobre-humana, sua voz de quatro oitavas enchendo o estádio sem esforço. Improvisou uma troca vocal com o público — «Ay-oh!» — que a multidão repetiu com fervor religioso. Brian May, Roger Taylor e John Deacon o acompanhavam com precisão de metrônomo, mas era o show de Freddie. «Hammer to Fall», «Crazy Little Thing Called Love», «We Will Rock You», «We Are the Champions» — cada canção era um hino que o público sabia de cor.
O próprio Bob Geldof, observando dos bastidores, ficou estupefato. «Ele era o melhor — disse depois. — Tocava o público como um instrumento.» Elton John, que devia se apresentar depois do Queen, confessou: «O Queen me roubou o show.» David Bowie, pouco dado a elogios, admitiu que Mercury havia «se apoderado do estádio».
O sol de julho se punha sobre Londres enquanto os últimos acordes de «We Are the Champions» ecoavam em Wembley. O crepúsculo se estendia longamente neste meio de verão inglês. Às 22 horas, enquanto os concertos continuavam, o céu sobre Londres começava finalmente a escurecer.
O céu de verão londrino deste 13 de julho oferecia um espetáculo de estação. Escorpião rastejava baixo no horizonte sul, Antares avermelhada como o coração de um gigante — seu brilho rivalizando com a luz escarlate dos holofotes de Wembley. Libra, logo acima, mantinha seus pratos celestes em equilíbrio sobre a multidão.
A leste, o triângulo de verão brilhava em todo o seu esplendor: Vega, a mais brilhante, na Lira; Deneb, no Cisne; e Altair, na Águia. Essas três estrelas formavam um triângulo quase perfeito, dominando o céu oriental como um logotipo celeste. A Via Láctea passava em pleno coração desse triângulo, um rio de luz que corria de norte a sul.
Arcturo, a gigante laranja do Boieiro, descia em direção ao horizonte oeste, seu brilho quente suavizando o crepúsculo. A Ursa Maior se inclinava no céu do noroeste, seu carro começando a descer. Júpiter brilhava com fulgor no céu da noite, acrescentando seu próprio esplendor às luzes do espetáculo.
Live Aid arrecadou 127 milhões de dólares para a luta contra a fome na Etiópia. O dinheiro salvou vidas, mas não tantas quanto Geldof teria desejado — parte foi desviada pelo regime etíope. O concerto levantou também questões incômodas sobre o «rock humanitário»: quem se beneficiava realmente? Os famintos ou as consciências ocidentais?
Mas para além das controvérsias, Live Aid permanece um momento único na história da cultura popular. Pela primeira vez, a música havia conectado o mundo inteiro em tempo real. 1,9 bilhão de pessoas — quase 40 por cento da população mundial da época — haviam assistido ao mesmo evento. A aldeia global de Marshall McLuhan se tornara realidade, pelo espaço de um concerto.
Freddie Mercury nunca conheceria um triunfo semelhante. Seis anos depois, em 24 de novembro de 1991, morreria de AIDS aos quarenta e cinco anos. Sua performance no Live Aid permanece seu testamento artístico — vinte minutos de perfeição absoluta sob um céu de verão inglês. As estrelas que velaram por Wembley naquela noite ainda brilham, e talvez elas também esperassem que alguém as capturasse em um mapa estelar.