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O Céu da Noite da Inauguração do Eurotúnel

Data:6 maio 1994
Local:Folkestone/Calais, Canal da Mancha
Coordenadas:51.0125, 1.1319
Categoria:Ciência

Em 6 de maio de 1994, François Mitterrand e a rainha Elizabeth II apertaram as mãos no meio do Estreito de Dover — simbolicamente unidos por 50 quilômetros de túnel escavado sob o mar. Pela primeira vez desde a era glacial, a Inglaterra e a França estavam fisicamente conectadas. Este mapa estelar captura a abóbada estrelada tal como se desdobrava sobre o Canal da Mancha naquela noite — o firmamento que velou pela reunião de dois mundos.

Contexto histórico

Em 6 de maio de 1994, dois trens partiram simultaneamente de Folkestone e de Calais. A bordo, dois chefes de Estado que tudo opunha e tudo reunia: François Mitterrand, presidente da República Francesa, socialista, intelectual, homem de letras; e Elizabeth II, rainha do Reino Unido, soberana constitucional de um império em declínio mas de dignidade intacta. Os dois trens se encontraram no meio do túnel, e os dois líderes apertaram as mãos. Esse gesto selou a conclusão de um dos maiores projetos de engenharia do século XX.

Cinquenta quilômetros de túnel sob o Canal da Mancha. Trinta e sete quilômetros sob o mar propriamente dito — o túnel submarino mais longo do mundo. Três galerias paralelas: duas para trens, uma de serviço. Onze tuneladoras gigantes haviam escavado desde ambos os lados da Mancha, e em 1 de dezembro de 1990, as equipes francesa e britânica se encontraram sob o fundo marinho, a 40 metros de profundidade sob o leito do mar, em um abraço histórico. O operário francês Philippe Cozette e seu homólogo britânico Graham Fagg foram os primeiros a apertar as mãos através da brecha.

O sonho de um túnel sob a Mancha era antigo. Napoleão o havia considerado já em 1802, imaginando uma estrada iluminada por lanternas a óleo com chaminés de ventilação emergindo do mar. Um engenheiro francês, Albert Mathieu, propusera um túnel para carruagens em 1803. No século XIX, tentativas de perfuração foram empreendidas dos dois lados, mas a desconfiança britânica — a Mancha era o fosso natural que protegia a Inglaterra das invasões continentais — fez abortar cada projeto. Em 1882, os britânicos pararam a escavação após 1.893 metros, por receio de que um túnel comprometesse a segurança nacional.

Foi preciso esperar até 1986 para que Margaret Thatcher e François Mitterrand assinassem o Tratado de Cantuária, lançando oficialmente o projeto. O financiamento seria inteiramente privado — nenhum centavo de dinheiro público, exigia Thatcher. O custo final chegou a 15 bilhões de euros (em valor atualizado), uma derrapagem de 80 por cento em relação ao orçamento inicial. Treze mil operários trabalharam na obra. Dez deles perderam a vida.

Na noite da inauguração, em 6 de maio de 1994, o céu acima do Estreito de Dover oferecia um espetáculo primaveril de beleza tranquila. O sol de maio se punha tarde, e o crepúsculo se esticava longamente acima do mar.

Às 22 horas, as primeiras estrelas perfuravam o azul profundo do céu de maio. Leão ocupava ainda um lugar proeminente no céu do sudoeste, Regulus cintilando como um diamante acima da superfície escura da Mancha. Virgem, com sua brilhante Espiga, dominava o sul. Arcturo, a gigante laranja do Boieiro, brilhava com esplendor quase no zênite — sua luz quente se refletia talvez nas águas calmas do estreito.

A leste, a constelação de Libra se erguia, seus pratos celestes em equilíbrio — um símbolo apropriado para esta noite que pesava duas nações, duas culturas, duas histórias, e as reunia. Escorpião começava a aparecer baixo no horizonte sudeste, Antares avermelhada como um coração pulsante.

A Ursa Maior, quase no zênite, apontava para a Estrela Polar — aquela estrela que os marinheiros do estreito haviam usado durante séculos para navegar entre as duas margens. Cassiopeia, baixa no céu do norte, traçava seu W característico. E Vega, a brilhante estrela da Lira, começava sua ascensão no céu de nordeste, anunciando o triângulo de verão que dominaria as noites vindouras.

O Canal da Mancha — esse braço de mar de 34 quilômetros no seu ponto mais estreito — fora ator da história europeia durante milênios. Guilherme o Conquistador o atravessara em 1066 para invadir a Inglaterra. A Armada Invencível fora derrotada em suas águas em 1588. Napoleão sonhara em franqueá-lo. Hitler fracassara. Louis Blériot o sobrevoara em 1909 em seu frágil monoplano. As tropas aliadas o haviam atravessado em 6 de junho de 1944 para o Desembarque da Normandia — exatamente cinquenta anos antes dessa inauguração, com um mês de diferença.

Mas a partir de então, não se atravessava mais a Mancha: passava-se por baixo. A viagem de Eurostar de Paris a Londres levava duas horas e quinze minutos, incluindo vinte minutos no próprio túnel. Os carros embarcavam em trens-lançadeira Le Shuttle em Calais e emergiam em Folkestone trinta e cinco minutos depois. A geografia fora vencida pela engenharia.

Naquela noite de 6 de maio de 1994, as mesmas estrelas brilhavam sobre Folkestone e Calais. Arcturo não fazia distinção entre a margem inglesa e a francesa. Regulus não conhecia fronteiras. Sob o firmamento comum que cobria as duas nações, um túnel de concreto e aço proclamava que a geografia não é fatalidade — e as estrelas que velaram por essa união ainda brilham, prontas para serem capturadas em seu mapa estelar.

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