O Céu da Noite da Abolição da Escravatura em França
A 27 de abril de 1848, o governo provisório da Segunda República Francesa assinou o decreto redigido por Victor Schœlcher que abolia definitivamente a escravatura em todas as colónias e possessões francesas. Duzentas e cinquenta mil pessoas — homens, mulheres e crianças — foram libertadas. Este mapa estelar captura a abóbada estrelada tal como se desdobrava sobre Paris nesta noite de liberdade — o firmamento sob o qual uma promessa da Revolução foi finalmente cumprida.
Contexto histórico
A 27 de abril de 1848, nos gabinetes do governo provisório da Segunda República Francesa, um homem assinou o documento que iria mudar o destino de 250.000 seres humanos. Victor Schœlcher, subsecretário de Estado das Colónias, tinha consagrado a sua vida a esta causa. O decreto que redigira constava de poucos artigos de uma clareza absoluta: «A escravatura será inteiramente abolida em todas as colónias e possessões de França, dois meses após a promulgação do presente decreto.» Sem nuances, sem exceções, sem período de transição para além desses dois meses. A liberdade, total e imediata.
Este decreto era o culminar de um combate de mais de meio século. A Revolução de 1789 proclamara os direitos do homem e do cidadão, mas foi preciso esperar por 1794 para que a Convenção Nacional votasse uma primeira abolição da escravatura — sob a pressão da revolta de Saint-Domingue liderada por Toussaint Louverture. Napoleão Bonaparte, em 1802, restabeleceu a escravatura nas colónias francesas, uma decisão que custou a vida a dezenas de milhares de pessoas e que permanece uma das páginas mais sombrias da história de França.
Victor Schœlcher, nascido em 1804 em Paris numa família de fabricantes de porcelana alsacianos, descobriu o horror da escravatura durante uma viagem de negócios a Cuba em 1829-1830. Visitou plantações, viu as condições desumanas dos escravizados — os açoitamentos, as correntes, as famílias separadas. Esta experiência transformou-o. Tornou-se a voz infatigável da abolição, publicando artigos, panfletos e livros, viajando pelas colónias para documentar as atrocidades.
Quando a Revolução de fevereiro de 1848 derrubou a monarquia de Luís Filipe e proclamou a República, Schœlcher aproveitou a oportunidade. Nomeado subsecretário de Estado das Colónias pelo governo provisório, apresentou imediatamente o seu projeto de decreto. François Arago, o célebre astrónomo tornado ministro da Marinha e das Colónias — um homem que conhecia as estrelas melhor do que ninguém — apôs a sua assinatura ao lado da de Schœlcher. A ironia da história quis que um homem habituado a cartografar o céu assinasse o documento que devolvia a liberdade a milhares de pessoas acorrentadas sob esse mesmo céu.
O decreto compreendia doze artigos. O primeiro proclamava a abolição. O segundo especificava que todo castigo corporal ficava doravante proibido. O terceiro concedia um prazo de dois meses para a sua aplicação nas colónias. Os artigos seguintes organizavam a indemnização — não dos escravizados, como a justiça teria exigido, mas dos proprietários, uma concessão política amarga mas julgada necessária para evitar a guerra civil nas colónias.
Nas semanas seguintes, a notícia atravessou os oceanos. Na Martinica, os escravizados não esperaram pelo prazo oficial: uma insurreição eclodiu a 22 de maio de 1848, e o governador Rostoland, perante a revolta, proclamou a abolição imediata sem esperar pela aplicação formal do decreto. Na Guadalupe, a liberdade foi proclamada a 27 de maio. Na Reunião, foi preciso esperar até 20 de dezembro. Em cada ilha, homens e mulheres que tinham vivido em correntes olharam para o céu como pessoas livres pela primeira vez.
Nessa noite de 27 de abril de 1848, o céu sobre Paris era o de uma noite de primavera em todo o seu esplendor. O sol acabara de se pôr e as primeiras estrelas perfuravam o crepúsculo azulado.
O Leão dominava o céu do sul, Regulus brilhando como um farol celeste. Foi sob o signo do Leão que este decreto de liberdade foi assinado — o leão, símbolo de coragem e soberania, parecia velar por este ato de justiça. Mais a leste, a Virgem erguia-se, carregando na mão a luminosa espiga de Spica. Arcturo, a gigante laranja do Boieiro, subia no céu oriental, a quarta estrela mais brilhante do firmamento, guia dos navegadores desde a Antiguidade.
A Ursa Maior reinava quase no zénite, o seu carro inclinado como uma taça que verte — e nessa noite, vertia liberdade. Os Gémeos — Castor e Pólux — desciam para oeste, dois irmãos inseparáveis num céu que não conhecia correntes. O Cão Menor, com a sua estrela Procyon, cintilava a sudoeste.
A Via Láctea, ainda visível no céu parisiense de 1848, estirava-se de norte a sul num arco pálido. Os candeeiros a óleo da capital projetavam uma luz fraca e vacilante, deixando o céu noturno numa escuridão que os parisienses modernos nunca conhecerão. As estrelas, nessa noite, brilhavam com uma intensidade que o progresso apagou desde então das cidades.
O decreto de 27 de abril de 1848 libertou aproximadamente 250.000 pessoas nas colónias francesas: Martinica, Guadalupe, Guiana Francesa, Reunião, Senegal e outros territórios. Mas a liberdade jurídica não significava igualdade real. Os antigos escravizados foram frequentemente obrigados a permanecer nas plantações como trabalhadores assalariados em condições pouco melhoradas. A indemnização foi paga aos proprietários, não aos escravizados. A luta pela verdadeira igualdade estava apenas a começar.
Victor Schœlcher consagrou o resto da sua vida à defesa dos direitos cívicos. Eleito senador pela Martinica e depois pela Guadalupe, combateu a pena de morte e defendeu os direitos das mulheres e dos trabalhadores. Morreu em 1893, e as suas cinzas foram transferidas para o Panteão em 1949, um século após o decreto que o tornou imortal. O 10 de maio é hoje o dia nacional das memórias do tráfico, da escravatura e das suas abolições em França.
Nessa noite de 27 de abril de 1848, as estrelas que brilhavam sobre Paris brilhavam também sobre a Martinica, a Guadalupe, a Guiana Francesa e a Reunião. O mesmo firmamento cobria os acorrentados e os livres. Mas nessa noite, pela primeira vez, o céu prometia um futuro diferente — e as estrelas que velaram por essa promessa ainda brilham, imutáveis, prontas para serem capturadas no seu mapa estelar.
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