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O Céu de Berna na Noite em que Einstein Mudou o Universo

Data:30 junho 1905
Local:Berna, Suíça
Coordenadas:46.9480, 7.4474
Categoria:Ciência

A 30 de junho de 1905, num modesto apartamento em Berna, um funcionário do Instituto Federal de Patentes de vinte e seis anos terminou de redigir um artigo de trinta e uma páginas que demoliria os alicerces da física newtoniana. Albert Einstein submeteu «Sobre a Eletrodinâmica dos Corpos em Movimento» à revista Annalen der Physik. Este mapa estelar captura a abóbada estrelada sobre Berna naquela noite — as mesmas estrelas cuja luz, Einstein acabava de demonstrar, viajava a uma velocidade absoluta e invariável.

Contexto histórico

O ano de 1905 é conhecido na história da ciência como o «Annus Mirabilis» — o ano miraculoso. No espaço de poucos meses, um desconhecido de vinte e seis anos, funcionário de terceira classe no Instituto Federal da Propriedade Intelectual em Berna, publicou quatro artigos científicos que, cada um à sua maneira, revolucionaram a nossa compreensão do universo. O terceiro desses artigos, submetido a 30 de junho de 1905, tinha um título anódino: «Sobre a Eletrodinâmica dos Corpos em Movimento». Continha a teoria da relatividade restrita.

Albert Einstein não era professor. Não tinha laboratório. Não possuía qualquer filiação universitária prestigiosa. Depois de se formar na Escola Politécnica Federal de Zurique em 1900, passara dois anos difíceis à procura de um lugar de assistente, acumulando recusa após recusa. Foi por intermédio de um amigo, Marcel Grossmann, que acabou por conseguir este modesto emprego de funcionário em Berna em 1902. O seu trabalho consistia em examinar pedidos de patentes — frequentemente relacionados com dispositivos elétricos e a sincronização de relógios.

Talvez tenha sido esta imersão quotidiana nas questões práticas da sincronização temporal que alimentou as suas reflexões mais profundas. Porque a relatividade restrita é, na sua essência, uma teoria do tempo. Einstein compreendeu que se a velocidade da luz é constante para todos os observadores — como as experiências da época sugeriam — então o próprio tempo deve ser relativo. Dois relógios em movimento um em relação ao outro não marcam ao mesmo ritmo. A simultaneidade é uma ilusão. O espaço e o tempo não são os quadros rígidos e absolutos que Newton postulara, mas um tecido flexível e entrelaçado: o espaço-tempo.

A 30 de junho de 1905, numa quente noite de verão bernense, Einstein completou o seu manuscrito. Imagina-se o jovem, com o bigode nascente e o cabelo ainda disciplinado, pousando a pena no apartamento da Kramgasse 49, no segundo andar. A sua mulher Mileva cuidava provavelmente do filho Hans Albert, com apenas um ano. Pela janela, os telhados da cidade velha de Berna recortavam-se contra o céu crepuscular.

Que espetáculo celeste se estendia sobre Berna naquela noite? O sol de verão punha-se tarde atrás dos Alpes bernenses, banhando as arcadas medievais da cidade com uma luz dourada e rasante. Quando a escuridão finalmente se instalou, o céu de verão suíço desdobrou-se em todo o seu esplendor. A Via Láctea arqueava-se numa banda luminosa de nordeste a sudoeste, cruzando o zénite com notável clareza graças ao ar puro dos Alpes.

A constelação do Escorpião dominava o horizonte sul, com Antares, o seu coração vermelho-sangue, pulsando suavemente. Acima do Escorpião, o Sagitário apontava a sua seta para o centro da galáxia — aquele núcleo misterioso da Via Láctea cuja natureza só seria compreendida décadas mais tarde. Vega, na constelação da Lira, brilhava com um fulgor azul-branco quase diretamente no zénite, dominando o «Triângulo de Verão» com Deneb no Cisne e Altair na Águia. Arcturo, a estrela laranja do Boieiro, descia lentamente para o horizonte ocidental.

A ironia cósmica é impressionante: Einstein, naquele preciso momento, acabava de demonstrar que a luz dessas estrelas não se comportava como alguém imaginara. A luz de Arcturo, viajando a 299.792 quilómetros por segundo, demorava aproximadamente 37 anos a alcançar a retina de Einstein. A de Vega, 25 anos. A de Antares, 550 anos. E essa luz, independentemente da velocidade a que um observador se deslocasse ao seu encontro, chegaria sempre exatamente à mesma velocidade. Este postulado, tão simples no seu enunciado, tão vertiginoso nas suas consequências, implicava que o tempo abranda quando se acelera, que a massa aumenta com a velocidade e que energia e massa são intercambiáveis — E=mc².

Essa última equação, a mais famosa da história da ciência, apareceu alguns meses depois num curto adendo publicado em setembro de 1905. Cinco símbolos. Três letras. A equivalência entre matéria e energia. Nessa fórmula estava o segredo do sol — a fusão nuclear que faz arder as estrelas há milhares de milhões de anos. Nessa fórmula estava também, tragicamente, o princípio da bomba atómica que devastaria Hiroxima quarenta anos depois.

Einstein não recebeu qualquer reação imediata ao seu artigo. O mundo científico levou anos a compreender o alcance do que escrevera. Max Planck, em Berlim, foi um dos primeiros a captar a importância do trabalho. Mas para a maioria dos físicos de 1905, o artigo de um obscuro funcionário suíço que examinava patentes não merecia atenção.

Contudo, sob o céu estrelado de Berna, naquela noite de junho de 1905, a física mudara para sempre. As estrelas que Einstein contemplava da sua janela nunca mais seriam as mesmas — não porque tivessem mudado, mas porque a humanidade, graças a um empregado de escritório insone e visionário, acabava finalmente de compreender o que elas realmente eram: fornalhas nucleares cuja luz atravessava um espaço-tempo maleável, curvado pela gravidade, onde o tempo não era mais do que uma dimensão entre outras num universo muito mais estranho e maravilhoso do que tudo o que Newton jamais imaginara.

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