O Céu da Noite da Final do Mundial 1998
A 12 de julho de 1998, a França venceu o Brasil por 3-0 na final do Mundial, no Stade de France em Saint-Denis. Os dois golos de cabeça de Zinédine Zidane e o golo de Emmanuel Petit selaram a maior vitória do futebol francês. Este mapa estelar captura a abóbada estrelada tal como brilhava sobre o Stade de France naquela noite — um firmamento estival que velava sobre o júbilo de toda uma nação, das bancadas do estádio aos Campos Elísios.
Contexto histórico
No dia 12 de julho de 1998, a França viveu o que muitos consideram a maior noite da sua história desportiva. No Stade de France, inaugurado apenas seis meses antes para acolher este Mundial, 80.000 espetadores prendiam a respiração. Do outro lado, o Brasil de Ronaldo, bicampeão em título, pentacampeão mundial, a Seleção envolta na sua icónica camisola amarela e verde, símbolo universal do futebol bonito. No papel, a França era a revelação.
Mas naquela noite, os Bleus de Zinédine Zidane iriam escrever uma das páginas mais gloriosas do desporto francês. Ao minuto 27, num canto batido por Emmanuel Petit, Zidane elevou-se acima da defesa brasileira e colocou uma cabeçada imparável na baliza de Taffarel. O estádio explodiu. O rugido de 80.000 vozes subiu para o céu de Saint-Denis como uma onda sísmica. Depois, ao minuto 45, novo canto, nova cabeçada de Zidane, nova explosão de alegria. 2-0 ao intervalo. A França ousava sonhar.
Nas ruas de todas as cidades de França, as buzinas começavam a soar. Os cafés transbordavam, os ecrãs de televisão nas montras atraíam cachos de transeuntes. As bandeiras tricolores apareciam nas janelas, nas varandas, nas mãos das crianças. A tensão da segunda parte era insuportável. Cada ataque brasileiro provocava um arrepio coletivo, cada alívio defensivo francês um suspiro de descompressão.
Ao minuto 90, num contra-ataque fulminante, Emmanuel Petit, o médio de cabelo loiro preso num rabo de cavalo, recuperou a bola no meio-campo, lançou-se para a baliza brasileira e, com um remate de esquerda, selou o resultado em 3-0. O árbitro apitou. A França era campeã do mundo.
O que se seguiu transcendeu o desporto. Um milhão de pessoas invadiram os Campos Elísios. A maior festa popular que Paris conhecera desde a Libertação de 1944 transformou a avenida mais famosa do mundo num rio humano azul, branco e vermelho. As pessoas beijavam-se, choravam, cantavam. O refrão «Et 1, et 2, et 3-0!» ressoava de uma ponta à outra da avenida. As fontes da praça da Concórdia acolheram banhistas improvisados. Os automobilistas, presos num engarrafamento histórico, saíam dos seus veículos para dançar.
Mas o que se via no céu acima desta celebração sem precedentes? A noite de 12 de julho de 1998 oferecia um céu de verão característico da região parisiense. O Triângulo de Verão brilhava no zénite: Vega, na Lira, resplandecia com um brilho branco-azulado quase irreal; Deneb, a cauda do Cisne, marcava o coração da Via Láctea; Altair, na Águia, completava esta majestosa figura estelar. A Via Láctea atravessava o céu de norte a sul, a sua banda leitosa oferecendo um espetáculo que a poluição luminosa de Paris habitualmente tornava invisível.
Antares, o coração vermelho do Escorpião, brilhava baixo no horizonte sul, o seu tom acobreado formando um contraste impressionante com os fogos de artifício que começavam a rebentar sobre os telhados de Paris. Arcturo, no Boieiro, declinava para oeste. Júpiter brilhava nos Peixes, acrescentando o seu esplendor planetário ao quadro celeste. A Ursa Maior descia para noroeste, como se também ela quisesse juntar-se à festa.
Esta vitória transcendeu o desporto para se tornar um momento de unidade nacional. A seleção francesa de 1998, apelidada de «black-blanc-beur» pelos média, refletia a diversidade da sociedade francesa. Zidane, filho de imigrantes argelinos cabilas de La Castellane, em Marselha. Thuram, da Guadalupe. Desailly, nascido no Gana. Djorkaeff, de ascendência arménia e polaca. Karembeu, canaque da Nova Caledónia. Esta equipa diversa tinha conquistado o mundo, e a França reconheceu-se nesse mosaico.
O presidente Jacques Chirac, da tribuna presidencial do Stade de France, ergueu a taça ao lado do capitão Didier Deschamps. As imagens de Zidane, o crânio rapado, os olhos brilhantes de lágrimas, correram o mundo. O Arco do Triunfo foi iluminado com uma projeção gigante do rosto do número 10, acompanhada destas simples palavras: «Merci Zizou.» Naquela noite, a França era uma só.
Nos dias seguintes, os analistas desportivos dissecaram o mistério do Brasil. Ronaldo, a estrela brasileira, sofrera um mal-estar misterioso horas antes do jogo. Convulsões, hospitalização, e depois um regresso surpresa ao onze titular. Vagueou pelo campo como um fantasma, ausente, espetral. O Brasil, privado do seu génio, nunca esteve no jogo. As teorias sobre o episódio alimentaram as conversas durante anos.
A festa durou três dias. Os jogadores desfilaram pelos Campos Elísios no dia seguinte, de pé num autocarro descapotável, aclamados por uma multidão ainda mais densa que na noite anterior. Os municípios rebatizaram ruas, praças e estádios. Bebés foram batizados de Zinédine. O futebol francês, durante muito tempo considerado um parente pobre do futebol mundial, tinha alcançado o cume.
As estrelas sobre o Stade de France naquele 12 de julho de 1998 foram as testemunhas silenciosas de um instante de graça coletiva, quando um desporto, um jogo e uma equipa conseguiram unir 60 milhões de pessoas num só grito de alegria. O céu de verão de Saint-Denis, com o seu Triângulo de Verão cintilante e a sua Via Láctea atravessando a noite, ficará para sempre associado à mais bela noite do futebol francês.