O Céu da Noite do Lançamento do Primeiro iPhone
A 29 de junho de 2007, o primeiro iPhone foi posto à venda nos Estados Unidos. Steve Jobs tinha apresentado o aparelho seis meses antes com estas palavras que se tornaram célebres: «Um iPod, um telefone, um comunicador de internet.» Naquela noite, filas estendiam-se diante das Apple Stores de todo o país. Este mapa estelar captura a abóbada estrelada tal como brilhava sobre São Francisco naquela noite — o firmamento de uma nova era que iria transformar a nossa relação com o mundo.
Contexto histórico
A 9 de janeiro de 2007, na Macworld Conference em São Francisco, Steve Jobs subiu ao palco vestido com a sua eterna gola alta preta e calças de ganga. «De vez em quando, surge um produto revolucionário que muda tudo», declarou com aquele sentido de suspense que lhe era próprio. Depois anunciou não um, mas três produtos: um iPod de ecrã largo com controlos táteis, um telemóvel revolucionário e um dispositivo de comunicação por internet revolucionário. Quando o público percebeu que se tratava de um único aparelho, a sala explodiu. O iPhone tinha nascido.
Cinco meses e vinte dias depois, a 29 de junho de 2007, às 18 horas, hora do Pacífico, as portas das Apple Stores abriram-se por todos os Estados Unidos. As filas tinham começado a formar-se dias antes. Diante da Apple Store da Quinta Avenida em Nova Iorque, alguns acampavam há mais de quatro dias. Em São Francisco, diante da loja da Market Street, a fila serpenteava por vários quarteirões. A atmosfera era a de um concerto de rock: excitação, camaradagem, antecipação febril.
O iPhone original era um objeto de desejo puro: um ecrã de 3,5 polegadas (revolucionário para a época), um design todo em vidro e alumínio, sem teclado físico. O seu preço — 499 dólares para o modelo de 4 GB e 599 dólares para o de 8 GB — colocava-o na categoria do luxo tecnológico. A sua memória era limitada, suportava apenas a rede Edge (antes do 3G), não tinha App Store (que só chegaria um ano depois), nem copiar-e-colar, nem MMS. Mas nada disso importava. O iPhone não era um telefone melhorado: era uma janela para um mundo novo.
Steve Jobs, cofundador da Apple em 1976 na garagem dos pais em Los Altos, tinha sido afastado da sua própria empresa em 1985, tinha fundado a NeXT e a Pixar, e depois regressara à Apple em 1997, quando a empresa estava à beira da falência. Em dez anos, tinha lançado o iMac, o iPod, o iTunes e agora o iPhone. Cada produto tinha redefinido a sua categoria. O iPhone iria redefinir a própria civilização.
Mas o que se via no céu acima de São Francisco naquela noite? A cidade, ladeada pelo oceano Pacífico e pela baía, beneficia de um microclima particular. O nevoeiro estival, apelidado de «Karl» pelos são-franciscanos, invade frequentemente a cidade ao final da tarde, rastejando sob a ponte Golden Gate como uma maré branca. Mas quando o céu estava limpo, as noites de finais de junho ofereciam um espetáculo celeste notável.
O Triângulo de Verão impunha-se a leste: Vega, na Lira, brilhava com um fulgor branco-azulado intenso, como o ecrã luminoso do novo iPhone; Deneb marcava a cauda do Cisne; Altair, na Águia, completava a figura. Arcturo, a sentinela do Boieiro, dominava o céu meridional com o seu característico brilho alaranjado. Espiga, na Virgem, cintilava mais abaixo, o seu azul puro formando um contraste impressionante com o tom acobreado de Arcturo.
A Ursa Maior atravessava o céu setentrional, a sua concha familiar apontando para Polaris. A partir de São Francisco, na latitude de 37,7° Norte, as constelações do norte eram bem visíveis enquanto o Escorpião, a sul, mal se elevava acima do horizonte, Antares brilhando avermelhado como uma sentinela distante. Júpiter brilhava na constelação de Ofiúco, acrescentando o seu brilho imponente ao panorama noturno.
Nas semanas seguintes ao lançamento, os analistas tecnológicos dividiram-se. Steve Ballmer, o CEO da Microsoft, troçou abertamente: «500 dólares? Com um plano de telefone? Não é um produto que vá interessar ao mercado de massa.» Os fabricantes de BlackBerry, então reis do smartphone profissional, consideravam o iPhone um brinquedo para o público em geral. Estavam todos errados.
Em 74 dias, a Apple vendeu um milhão de iPhones. O número pode parecer modesto comparado com as centenas de milhões de unidades vendidas hoje em cada ano, mas é preciso lembrar que em 2007, o próprio conceito de smartphone tátil não existia na imaginação do público. O teclado físico QWERTY era a norma. A ideia de navegar na Internet, ouvir música, ver vídeos e telefonar com o mesmo aparelho parecia futurista.
O impacto do iPhone ultrapassou de longe a tecnologia. Transformou a fotografia — o Instagram, lançado em 2010, não seria nada sem ele. Revolucionou a música — o Spotify, o Shazam e os podcasts devem a sua existência ao smartphone. Mudou o jornalismo, o comércio, os transportes (Uber), o alojamento (Airbnb), as finanças (aplicações bancárias), a saúde (relógios inteligentes) e as relações amorosas (Tinder). Fez nascer a economia das aplicações, um mercado que geraria centenas de milhares de milhões de dólares.
Mas o iPhone também teve consequências que Steve Jobs não antecipara. A dependência dos ecrãs tornou-se um problema de saúde pública. As redes sociais, acessíveis permanentemente no bolso de cada pessoa, transformaram o debate público, a política e a própria noção de verdade. A fronteira entre vida privada e vida pública, entre trabalho e lazer, entre presença física e presença digital, tornou-se difusa, depois inexistente.
Steve Jobs morreu a 5 de outubro de 2011, quatro anos após este lançamento histórico, vítima de cancro do pâncreas aos 56 anos. Teve tempo de ver o iPhone 4, o iPad e a App Store transformarem o mundo que tinha imaginado. Mas nunca viu o iPhone tornar-se no que é hoje: uma extensão do corpo humano, um órgão digital que mais de três mil milhões de pessoas consultam em média 150 vezes por dia.
As estrelas acima de São Francisco naquele 29 de junho de 2007 foram as testemunhas silenciosas do nascimento de um objeto que iria mudar a nossa maneira de ver o mundo — e, ironicamente, reduzir a nossa capacidade de olhar para elas. O Triângulo de Verão que brilhava no céu californiano naquela noite continua a brilhar, imutável, acima de uma humanidade agora cravada nos seus ecrãs.