Aller au contenu

O Céu da Noite da Mão de Deus

Data:22 junho 1986
Local:Estadio Azteca, Cidade do México
Coordenadas:19.3029, -99.1505
Categoria:Esporte

A 22 de junho de 1986, no Estadio Azteca da Cidade do México, Diego Armando Maradona marcou, no espaço de quatro minutos, os dois golos mais célebres da história do futebol: a «Mão de Deus» e o «Golo do Século». Argentina contra Inglaterra, quartos de final do Mundial de 1986. Este mapa estelar captura a abóbada estrelada tal como brilhava sobre o Azteca naquela noite — um firmamento tropical que contemplava o génio e a astúcia de um só homem a reescrever a história do desporto.

Contexto histórico

No dia 22 de junho de 1986, o Estadio Azteca da Cidade do México acolheu muito mais do que um quarto de final do Mundial. O cartaz Argentina-Inglaterra carregava o peso de um conflito recente e doloroso: a Guerra das Malvinas, que opusera os dois países quatro anos antes, em 1982, ceifando 649 vidas argentinas e 255 britânicas. Nas bancadas do Azteca, 114.580 espetadores — um recorde que ainda se mantém — sabiam que assistiam a muito mais do que um jogo de futebol. Era uma vingança simbólica, uma catarse nacional.

O jogo começou sob um calor sufocante, ao meio-dia hora local, sob o sol vertical do planalto mexicano a 2.240 metros de altitude. A primeira parte foi tensa, nervosa, sem golos. As duas equipas neutralizavam-se num combate físico e tático. A Inglaterra de Peter Shilton, Gary Lineker e Peter Beardsley praticava um futebol sólido e disciplinado. A Argentina contava com um só homem para fazer a diferença.

Ao minuto 51, tudo mudou. Num lance aéreo dentro da grande área inglesa, Maradona e o guarda-redes Peter Shilton subiram juntos. Maradona, com o seu metro e sessenta e cinco, não tinha qualquer hipótese de ganhar aquele duelo aéreo contra o gigante Shilton. Então levantou o punho esquerdo e atingiu a bola com a mão, empurrando-a por cima do guarda-redes e para dentro da baliza. O árbitro tunisino Ali Bennaceur não viu nada. O seu assistente também não. Golo validado. O estádio estremeceu. Os ingleses protestaram com veemência, mas a decisão estava tomada.

Após o jogo, interrogado pelos jornalistas, Maradona pronunciou a frase que se tornaria lendária: «Foi um pouco a mão de Deus e um pouco a cabeça de Maradona.» Esta resposta, misto de provocação, humor e desafio, resumia perfeitamente a personalidade deste homem extraordinário — genial e transgressor, artista e trapaceiro, anjo e demónio num mesmo corpo.

Mas quatro minutos depois, ao minuto 55, Maradona iria apagar a controvérsia com um ato de pura graça. Recuperou a bola na sua própria metade do campo, ligeiramente à direita do centro. O que se seguiu durou exatamente 10,6 segundos. Maradona começou a correr. Driblou Peter Beardsley com uma finta. Depois Peter Reid. Depois Terry Butcher, o colosso inglês, que tentou derrubá-lo mas só encontrou o vazio. Depois Terry Fenwick, com um corte interior de uma elegância irreal. Depois o guarda-redes Shilton, que contornou com uma finta de corpo antes de empurrar a bola para a baliza vazia com o pé esquerdo cirúrgico, de um ângulo quase impossível.

Onze toques. Sessenta metros. Seis adversários driblados. Dez vírgula seis segundos. O Estadio Azteca explodiu num rugido que pareceu abalar as montanhas circundantes. Os comentadores argentinos gritaram, choraram. Victor Hugo Morales, o mais célebre deles, improvisou um comentário que se tornou ele próprio lendário: «Barrilete cósmico! De que planeta vieste para deixar tantos ingleses pelo caminho?» O golo foi oficialmente eleito «Golo do Século» pela FIFA em 2002.

Mas o que se via no céu acima do Estadio Azteca naquela noite? A Cidade do México, empoleirada a 2.240 metros de altitude, oferece um dos céus mais espetaculares das grandes metrópoles mundiais. A altitude reduz a espessura da atmosfera, tornando as estrelas mais brilhantes e mais numerosas do que ao nível do mar. O céu de finais de junho, sob os trópicos, revelava constelações simultaneamente familiares e exóticas para um observador europeu.

O Escorpião, impossível de ver na sua totalidade a partir de Paris ou Londres, espraiava-se em todo o seu esplendor a sul. Antares, o seu coração vermelho-sangue, pulsava como uma brasa sobre o horizonte meridional, o seu brilho acobreado recordando as cores da camisola alviceleste argentina. A Via Láctea, cruzando o céu de leste a oeste, passava diretamente sobre o estádio, a sua banda leitosa de uma clareza excecional a esta altitude.

Júpiter brilhava nos Peixes, acrescentando o seu esplendor real ao panorama celeste. Vega, a futura estrela polar daqui a 12.000 anos, cintilava alta no céu oriental, na constelação da Lira. O Triângulo de Verão — Vega, Deneb e Altair — começava a formar-se na parte oriental do firmamento, promessa de noites quentes por vir.

A Cruz do Sul, invisível a partir da Europa, mal se adivinhava sobre o horizonte meridional da Cidade do México — uma piscadela de olho ao país de origem de Maradona, a Argentina, onde esta constelação figura na bandeira nacional e no imaginário coletivo de todo um continente.

A Argentina venceu o jogo por 2-1, depois a meia-final contra a Bélgica (também graças a dois golos de Maradona) e finalmente o Mundial a 29 de junho, batendo a Alemanha Ocidental por 3-2 na final. Maradona, aos 25 anos, estava no auge da sua arte. O menino das favelas de Villa Fiorito, nos subúrbios sul de Buenos Aires, tinha conquistado o mundo com os pés — e, uma vez, com a mão.

Aqueles dez minutos no Estadio Azteca, entre o minuto 51 e o 55, continuam a ser os dez minutos mais extraordinários da história do futebol. Nunca um jogador concentrara num lapso tão breve tanta batota sublime e tanto génio puro. A «Mão de Deus» e o «Golo do Século» são as duas faces da mesma moeda — a de um homem que se recusava a deixar-se limitar pelas regras, fossem as regras do jogo ou as leis da física.

As estrelas sobre o Azteca naquele 22 de junho de 1986 foram as testemunhas silenciosas do instante em que um homem se tornou lenda. O céu tropical da Cidade do México, com o seu majestoso Escorpião e a sua deslumbrante Via Láctea, emoldurou aqueles dez minutos de eternidade desportiva como um estojo de veludo negro emoldura um diamante em bruto.

Crie o seu mapa estelar para esta data

Criar o meu mapa estelar — desde 12,00 €
Todos os eventos históricos